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Romi-Isetta: o primeiro carro em série do Brasil completa 70 anos

O icônico Romi-Isetta completa 70 anos de história neste mês, relembrando o verdadeiro ponto de partida da fabricação de automóveis de passeio em escala comercial no país. Concebido em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, o compacto de uma única porta dianteira abriu os caminhos para o setor automotivo nacional muito antes da chegada das grandes multinacionais estrangeiras.

A origem do pioneiro nacional

Idealizado por Américo Emílio Romi, dono da tradicional indústria de máquinas agrícolas Romi, o projeto nasceu de uma licença obtida na Itália após seu enteado descobrir o veículo em uma revista estrangeira. Com mais de 70% de suas peças fabricadas localmente, o compacto marcou uma época em que o Brasil dependia exclusivamente de importações ou da montagem de veículos pelo sistema CKD.

A produção seguiu até 1961, resultando em cerca de 3 mil unidades fabricadas. Embora tenha tido uma trajetória comercial curta e sido visto por alguns como um fracasso de vendas, o automóvel deixou um legado industrial inegável, estabelecendo uma sólida rede de fornecedores e mão de obra qualificada no interior paulista.

Bastião da indústria e os bastidores políticos

Especialistas apontam que a capacidade técnica prévia da fabricante de máquinas foi determinante para viabilizar o projeto. A empresa já dominava a metalurgia e a fabricação de ferramentas de alta precisão, credenciais essenciais para encarar o desafio tecnológico antes mesmo do forte impulso estatal promovido pelo governo de Juscelino Kubitschek.

Apesar de ter saído da linha de montagem antes de qualquer iniciativa oficial do governo para incentivar o setor, o modelo perdeu o título oficial de primeiro carro nacional para a DKW-Vemag. Historiadores explicam que a decisão teve fortes motivações políticas, impulsionadas pelo lobby de montadoras estrangeiras que buscavam favorecer o eixo do ABC Paulista em detrimento das iniciativas pioneiras do interior.

Paixão de colecionadores e o futuro automotivo

Atualmente, os raros exemplares sobreviventes tornaram-se valiosos itens de colecionador. Fãs da marca promovem encontros anuais para celebrar a memória do veículo, criando até mesmo réplicas adaptadas com motores elétricos para encantar novas gerações de entusiastas do automobilismo clássico.

Olhando para o cenário atual, pesquisadores ressaltam que a trajetória do clássico paulista reflete um dilema histórico do país: o desafio de equilibrar a atração de capitais estrangeiros com o apoio à inovação tecnológica genuinamente nacional. Enquanto o setor enfrenta novas transformações com a transição energética e o avanço de marcas globais, o pioneirismo de Santa Bárbara d’Oeste permanece vivo na história industrial brasileira.

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