A perda de um ente querido traz um dos momentos mais difíceis para qualquer família, que se vê diante da dura responsabilidade de autorizar a doação de órgãos após o diagnóstico de morte encefálica. No território nacional, a taxa média de recusa por parte dos parentes permanece em torno de 45%, um índice que oscila entre estados e instituições de saúde, apontando que o problema vai além da vontade popular e envolve questões estruturais.
Os impactos da falha na comunicação hospitalar
Segundo Cristiano Franke, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), diversos pacientes expressam em vida o desejo de ser doadores, e muitas famílias gostariam de honrar essa escolha. Contudo, a deficiência no acolhimento e na transmissão de informações dentro das redes pública e privada representa um obstáculo crítico para a consolidação dos transplantes.
O especialista aponta que a falta de preparo das equipes médicas para conduzir diálogos sensíveis, o uso de jargões técnicos excessivos e abordagens frias em ambientes inadequados dificultam a tomada de decisão. Além disso, barreiras como o ceticismo quanto ao diagnóstico, crenças religiosas, o medo de mutilação do corpo e a desconfiança em relação à equipe médica alimentam a resistência dos parentes.
Capacitação de profissionais para reverter o cenário
Para mitigar esse problema, uma iniciativa conjunta com o Ministério da Saúde capacitou, entre setembro de 2025 e agosto de 2026, exatos 2.534 profissionais de saúde, superando em 25% a meta estipulada inicialmente. O projeto visa aprimorar desde a identificação de potenciais doadores e a confirmação rigorosa da morte encefálica até o suporte humanizado aos entes queridos.
O treinamento abrangeu 933 médicos focados na determinação de morte encefálica, além de enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e outros profissionais instruídos em gestão de transplantes e comunicação crítica. Ao todo, 73 cursos foram executados em 25 estados brasileiros, com novas etapas programadas para cidades como Fortaleza e Florianópolis.
Panorama dos transplantes no país
Dados do Registro Brasileiro de Transplantes mostram que, em 2025, o país contabilizou 15.940 potenciais doadores, dos quais 4.335 efetivaram a doação. Por outro lado, 4.200 famílias negaram a autorização, refletindo o patamar de 45% de rejeição nas entrevistas. Apesar disso, a taxa de doadores efetivos subiu para 20,3 por milhão de habitantes no período, demonstrando um avanço gradual na área.




