A suspensão das atividades de casas de apostas no Brasil pode intensificar o problema da ludopatia ao direcionar usuários vulneráveis para o mercado clandestino, alertam especialistas e entidades representativas.
Impacto nos cofres públicos e regulação interrompida
Além de incentivar a migração para plataformas marginais, a medida abrupta ameaça a arrecadação do governo e gera riscos de disputas judiciais para indenizações de empresas devidamente licenciadas. O economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV/Ibre, aponta que interromper a regulamentação em curso, iniciada há mais de um ano, gera mais malefícios do que vantagens.
Para o especialista, o apostador casual tende a abandonar a prática, enquanto o jogador compulsivo busca alternativas sem qualquer supervisão estatal, agravando um quadro que já exigia tratamento especializado e controle fiscal.
Crescimento acelerado de domínios ilegais
Dados da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) indicam que cerca de 41% do volume apostado no território nacional ocorre em páginas marginais. O presidente da entidade, Plínio Lemos Jorge, destaca a dificuldade operacional de conter o fenômeno, apontando o surgimento médio de 13,7 novos endereços clandestinos por dia entre junho e agosto, mesmo com as derrubadas coordenadas pela Anatel.
Avanços do modelo brasileiro de jogo responsável
A regulamentação nacional incorporava travas rigorosas, como biometria facial, restrição para menores de idade, proibição do uso de cartão de crédito e bloqueio automático para beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família e o BPC. Ricardo Nigri, CEO da EBAC, reforça que o arcabouço normativo brasileiro era referência internacional por equilibrar controle e flexibilidade, permitindo que as próprias plataformas limitassem o acesso de perfis com comportamento abusivo.
Experiência internacional como alternativa
Especialistas sugerem que, em vez de banir totalmente a atividade, o poder público deveria espelhar-se em modelos europeus maduros. A adoção de ferramentas como o aumento do intervalo entre o palpite e a efetivação da aposta, somada a tetos baseados no saldo bancário, combate diretamente a arquitetura viciante dos sistemas sem recorrer à total desregulamentação.




